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Vermelho e negro

Espaço de informação alternativa e libertária on-line. Actualizado diariamente com informações de vários colectivos anti-autoritários portugueses, brasileiros e de outros países.

Memórias de Abril: a autogestão das empresas pelos trabalhadores, à margem dos patrões e dos comissários políticos

Abril 22, 2019

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A seguir ao 25 de Abril de 1974 dezenas e dezenas de fábricas entraram em regime de autogestão. Muitas porque os patrões as abandonaram  e ameaçaram mesmo levar as máquinas; outros porque os trabalhadores as ocuparam devido à deficiente gestão patronal que, em geral, acumulavam salários em atraso. Por todo o país sucederam-se as ocupações de fábricas, ainda antes das ocupações de terras. Foi um movimento generalizado que demonstrou as virtualidades da auto-organização operária. De referir que muitas destas empresas autogestionadas tinham uma parcela muito importante de mulheres, já que foram muitas as empresas da área do textil e das confecções que encetaram processo de luta no período inicial pós-25 de Abril. Uma dessas empresas foi a Sogantal. O libertário José Maria Carvalho Ferreira acompanhou este processo e relatou-o nas páginas duma pequena publicação ("O Futuro era Agora") destinada a assinalar os 20 anos do 25 de Abril e que recolheu diversos testemunhos de militantes de diversas áreas políticas. Entre os jornais que se fizeram eco deste movimento à margem dos patrões e dos comissários politicos e sindicais estiveram na primeira linha "A Batalha" e o "Combate" (aqui o 1º número com um grande destaque sobre a luta das trabalhadoras da Sogantal) , um jornal que se destacou pelo apoio às lutas autónomas dos trabalhadores (e que, nesta mesma publicação, é objecto de um artigo do Júlio Henriques, que fez parte do seu corpo redactorial) .

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Autogestão na Sogantal

 

José Maria Carvalho Ferreira, professor, 48 anos

 

Cheguei de Paris em Junho de 74, convencido de que vinha encontrar uma revolução democrático-burguesa clássica, controlada pelos militares, mas logo comecei a aperceber-me de que algo muito mais importante estava a acontecer.

Foi para mim uma grande experiência ter entrado em contacto com a luta da fábrica de confecções Sogantal, pertencente a patrões franceses, situada no Samouco (Montijo). Tinha umas 50 operárias, que ocuparam a empresa em Junho de 74, quando o gerente tentou responder com represálias às suas reivindicações de maiores salários, férias pagas e 13º mês.

Casos semelhantes estavam a dar-se noutras empresas mas aqui a ocupação assumiu uma radicalidade invulgar: supressão das cadências e dos horários obrigatórios; abolição das hierarquias; igualização dos salários; rotação das tarefas, inclusive de direcção; e, mais subversivo ainda, a decisão de encetar a venda directa da produção.

Estas decisões foram tomadas em assembleias gerais que se reuniam regularmente e às quais podiam assistir pessoas estranhas à fábrica. A comissão de trabalhadores era também de composição rotativa.

Tudo isto teve uma outra consequência da maior importância: as mulheres começaram a libertar-se da autoridade do marido e da família, dos valores patriarcais vigentes. Até aí, passavam o dia a trabalhar e a obedecer passivamente a ordens, tanto na fábrica como em casa, e não podiam deslocar-se sozinhas para lado nenhum. A partir daí, raparigas, na maioria de dezoito, vinte anos, passavam do trabalho na produção à discussão nas assembleias, faziam as contas da empresa, participavam nos piquetes de vigilância nocturna, deslocavam-se a vários pontos do país para vender a mercadoria, davam opinião sobre tudo. Claro que surgiram conflitos familiares e houve mesmo alguns divórcios.

A audácia sem paralelo deste grupo de operárias pode  compreender-se se tivermos em conta que partidos e sindicatos tinham nessa altura muito pouca influência na empresa. Entretanto, os problemas acumulavam-se. Foi primeiro a incursão dum grupo de mercenários, armados de pistolas, granadas, matracas, gases lacrimogéneos e com cães, que se introduziram na fábrica de madrugada. Dado o alerta por uma operária, uma parte da população do Montijo cercou as instalações e travou-se luta de que resultou um incêndio. Os sabotadores só foram retirados a salvo graças ao socorro da GNR e do COPCON.

Mas o principal problema era a dificuldade em vender a produção. A venda das roupas pelas próprias operárias era mal vista, mesmo pelos habitantes na zona, assustados por este atentado directo à sagrada e intocável propriedade privada. No Verão, com o apoio da solidariedade externa, ainda foi possível entrar em contacto com em presas em luta, como a Timex e sobretudo a TAP, que era na altura um cadinho revolucionário, e cujos operários passaram a absorver boa parte da produção da Sogantal.

Quando se desencadeia a greve na TAP e as oficinas são invadidas pela tropa, havia já um conjunto de empresas, creio que eram 36, com CTs que não estavam subordinadas ao PC, embora estivessem a ser infiltradas por grupos esquerdistas. A CT da TAP convocou uma reunião no Clube Atlético de Campo de Ourique (CACO), onde se formou a Interempresas e se apelou à greve geral de solidariedade contra a repressão militar. O apelo foi para ser impresso no sindicato dos têxteis mas o Agostinho Roseta, que viu, achou aquilo altamente incendiário e sabotou a impressão do manifesto.

Entretanto, na Sogantal, as dificuldades em escoar a produção foram-se acumulando. As diligências junto do Ministério do Trabalho e do Sindicato dos Têxteis, com vista à nacionalização da empresa ou à sua transformação em cooperativa, ficaram sem efeito. As operárias chegaram à conclusão de que a sua experiência fora muito além das das outras empresas. Tiveram que assentar os pés na terra e parar de sonhar. Enquanto isto, o Sindicato, a troco do apoio prestado à luta, começou a imiscuir-se nas decisões internas e a fomentar divisões. Por fim, depois duma longa agonia em que já não havia meios para subsistir, cada uma foi para seu lado. Isto foi já em 1976.

A pesar deste epílogo negativo - inevitável nas condições de isolamento em que este punhado de operárias se encontrou - a luta da Sogantal ficou como um a das mais avançadas experiências de autogestão operária em Portugal.

 

aqui; https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/futuro/O%20futuro%20era%20agora.pdf

mais sobre a sogantal: https://ephemerajpp.com/2018/04/27/luta-das-operarias-da-sogantal-agosto-1974/

jornais da sogantal: https://ephemerajpp.com/2012/11/10/jornal-da-sogantal/

 

Che Guevara: a verdade por detrás da lenda, por Larry Gambone

Abril 17, 2019

 

 

São Che

a verdade por detrás
da lenda do guerrilheiro heróico,
Ernesto Che Guevara

 

Larry Gambone

 

1997

 

Tradução da versão inglesa de
Red Lion Press, Montreal, 1997

 

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Índice:

 

O jovem Che ou "Don’t cry for me, Argentina".

As raízes fascistas da concepção do mundo do Che.

O Che stalinista.

O Che executor.

O Che burocrata.

A tragédia de Che Guevara.

O Che morreu pelos nossos pecados.

Notas.

 

Anexo: Os anarco-sindicalistas cubanos nos anos 1950.

 
Outras Leituras

 

Nota do Tradutor

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"O Che foi o ser humano mais completo da nossa época."

Jean-Paul Sartre     

 

     Uma camponesa acende uma vela ao santo e reza para que o seu filho fique bem e a colheita de batatas seja boa este ano. As suas preces, e as preces de outros camponeses, já antes foram atendidas, dizem os aldeões. "Parecia-se mesmo com Nosso Senhor ali deitado morto na escola", contava ela ao jornalista da televisão. O nome desse santo milagreiro? Ernesto Che Guevara! (*1)

     Não se riam desses camponeses. Não os olhem do alto da vossa arrogância de "mundo desenvolvido". Não há qualquer dúvida de que o Che "intervém" nas suas vidas fustigadas pela pobreza — tal como fazem todos os outros santos. E quem somos nós para pretender ter um conhecimento absoluto do mundo e do espírito humano e de todo o seu funcionamento?

     O que diria o Che do incenso e das velas queimados em seu nome? Enquanto militante comunista e ateu, teria rejeitado tudo isso como superstição primitiva herdada de um passado reaccionário. Que ironia que tal pessoa se tenha tornado um santo. Mas não são apenas os camponeses bolivianos que veneram o guerrilheiro morto. Trinta anos após o seu assassinato, a sua imagem está colada nos muros de metade das residências universitárias do mundo. O seu olhar severo e ascético fixa-nos desde inúmeras camisolas, autocolantes e distintivos. A mística do Che Guevara está divulgada universalmente.

     Não adianta perguntar se ele merece essa idolatria. À primeira vista, é fácil responder afirmativamente sem qualquer reserva. Ele é aquele que tinha a posição número dois em Cuba e que dela desceu para combater na selva pelo que acreditava ser a libertação. Sofrendo de asma e com um reduzido grupo de seguidores, foi perseguido e assassinado pelo exército boliviano. Guevara era também a personagem romântica perfeita — belo, carismático e sinceramente amado pelas mulheres. Não um palhaço intelectual sem vida como Staline, nem um perverso misterioso como Mao ou um megalómano como o seu velho amigo Fidel, mas um homem real. Poderia ter saído de uma novela romântica.

     E parece-se realmente com o Cristo, jazendo morto naquela fotografia célebre.

     Sim, é possível compreender o fascínio que inúmeras pessoas, particularmente os jovens, têm por este homem. Mas compreender um fenómeno é uma coisa, se ele dá uma verdadeira imagem da realidade é outra. Para isso, é preciso olhar para além da mística.

 

O jovem Che ou “Don’t cry for me, Argentina”

 

     Durante os anos de formação de Che Guevara, a Argentina esteve dominada pelo Movimento Peronista. O peronismo, em grande parte uma invenção da brilhante esposa de Peron, Eva, foi a coisa mais próxima do fascismo perfeito que já existiu.

     Esqueça-se toda a propaganda e todas as cretinices que se incrustaram em torno da palavra “fascista”. Esqueça-se o nazi-fascismo e o fascismo clerical de Franco e Salazar. Por fascismo entendo a verdadeira essência do que foi um movimento revolucionário — o fascismo de esquerda.

     O fascismo verdadeiro e puro, tal como perspectivado por Mussolini, surgiu da ala esquerda militante do socialismo italiano. Era uma tentativa de impor o programa social-democrata através da ditadura e da força armada. O movimento rejeitava o positivismo e o evolucionismo estéril do marxismo ortodoxo, substituindo-o por uma emotividade romântica, por um nacionalismo extremo, por um culto da vontade e do “homem de acção”. O objectivo era nacionalizar a indústria e subordinar todas as classes às necessidades do Estado. As classes trabalhadoras deveriam beneficiar dessa revolução — mas somente na medida em que ficassem submetidas ao Estado fascista. O problema de Mussolini foi que nunca teve o apoio da classe trabalhadora, tendo sido obrigado a virar-se para as classes médias tradicionais. Por isso, muito da sua revolução não passou do papel.

     Não foi essa a situação que os Peron enfrentaram. Mais de 15 anos antes de eles tomarem o poder, os generais esmagaram os poderosos sindicatos anarco-sindicalistas e apenas alguns pequenos vestígios restaram. Os trabalhadores eram pobres, desorganizados e sem voz. Eva Duarte-Peron foi capaz de construir um movimento de trabalhadores que preencheu um vazio organizacional (e quando necessário esmagando os seus opositores enfraquecidos). Assim, o peronismo (fascismo argentino) tinha uma base sólida entre os trabalhadores. Com os encorajamentos da sempre enérgica Evita, o movimento nacionalizou os bancos, as companhias de seguros, as minas e os caminhos de ferro. Por isso, a Argentina possuía provavelmente o mais vasto sector capitalista de Estado fora de um regime stalinista. Os salários foram aumentados por decreto e foram introduzidos uma série de benefícios sociais a favor de Los Descamisados (literalmente “os sem camisa”, as classes trabalhadoras partidárias dos Peron). Até a Igreja foi atacada. A cartada “anti-imperialista” foi jogada ao extremo, alternando entre um anti-americanismo violento e um sentimento anti-britânico. O estrangeiro convertia-se no bode expiatório de todos os problemas da Argentina.

     Che Guevara simpatizava com o peronismo e assimilara muitas das suas ideias. De muitas maneiras, deveria permanecer sob o charme da ideologia peronista toda a sua vida. Em 1955, depois de ter optado por Staline, podia igualmente afirmar que “temos de dar a Peron todo o apoio possível…” (p. 127) (1). Quando Peron caiu (*2), declarou: “Confesso com toda a sinceridade que a queda de Peron me tornou profundamente amargo… A Argentina era o paladino de todos aqueles que pensam que o inimigo está no Norte” (p. 182). Durante a revolução cubana, o Che chamou aos seus novos recrutas na guerrilha Los Descamisados (p. 231), o nome que Peron dava aos seus partidários.

     Essa afeição pelo peronismo nunca cessou. O Che disse a Angel Borlenghi (o antigo ministro do Interior de Peron) em 1961, que Peron era a encarnação mais avançada da reforma política e económica na América Latina (2). Em 1962, o Che declarou que os peronistas tinham de ser incluídos na frente revolucionária argentina. Fidel pediu a Peron que visitasse Cuba. John Cooke, o representante pessoal de Peron, visitou Cuba e elogiou a Revolução (p. 539).

 

As raízes fascistas da concepção do mundo do Che

 

     Pode observar-se a influência peronista (e fascista em geral) em muitos aspectos do pensamento do Che. No que se refere ao que era necessário para fazer uma revolução, o Che considerava que “o que era exigido para fazer progressos políticos… era uma direcção forte e determinada a utilizar a força” (p. 50). O Che nunca se preocupou com os modos ditatoriais e autocráticos de Fidel. Ele achava que a verdadeira revolução só podia ser levada a cabo por um “homem forte” (p. 319).

     Tinha igualmente a obsessão fascista pela vontade: “O poder da vontade triunfará de tudo… O destino pode ser cumprido pelo poder da vontade… Morrer, sim, mas crivado de balas… uma recordação mais duradoura que o meu nome é combater para morrer combatendo.” Assim escrevia Ernesto Guevara aos 18 anos em 1947 (p. 44). Isto não era somente um melodrama de adolescente. Com 25 anos de idade, quando estava na Guatemala, o Che teve uma “revelação” sobre a qual escreveu: “E vejo… como morro como um sacrifício à verdadeira revolução modeladora das vontades… agora o meu corpo agita-se, pronto para o combate, e preparo o meu ser como se ele fosse um lugar sagrado afim de que o rugido bestial do proletariado possa ressoar” (p. 124).

     A ideologia fascista afasta com desprezo a “moderação” e o compromisso racional, considerando-os como fraqueza e decadência. Para o Che, a moderação era qualquer coisa a ser evitada a todo o custo e era “uma das mais execráveis qualidades. Não só não sou moderado, como tentarei nunca o ser, e quando verificar que a chama sagrada em mim tenha sido reduzida a uma tímida luz votiva, o mínimo que poderei fazer é vomitar sobre a minha própria merda”, escreveu em 1956 (p. 199). Muitos anos depois, exprimiu a opinião de que “todos aqueles que têm medo ou encaram qualquer forma de traição são moderados” (p. 477). Tinha uma opinião muito fraca dos revolucionários populistas tais como Betancourt da Venezuela e Figueres da Costa Rica, considerando que a sua vontade de compromisso com os americanos resultava de fraqueza e falta de determinação.

     O fascismo também glorifica a guerra e idolatra o militarismo e os militares. O Che “identificava a guerra como a circunstância ideal para alcançar a consciência socialista” (p. 299). Encarava o exército revolucionário como a “principal arma política da revolução” e achava que “a liberdade de imprensa era perigosa” (p. 422).

     O nacionalismo extremo, fomentador de ódio e da transformação em bodes expiatórios de outras nações e povos, foi sempre um aspecto importante do fascismo. O Che era “obcecado” pela ideia de que os EUA eram os culpados de tudo. Essa procura de bodes expiatórios começou a adquirir contornos sérios aquando da sua primeira viagem pela Argentina em 1950, quando descobriu a pobreza rural (p. 52). Tinha uma “…hostilidade profundamente enraizada contra os EUA… As únicas coisas de que gostava desse país eram os seus poetas e romancistas” (p. 63). O Che declarou uma vez: “Morreria com um sorriso nos lábios combatendo essa gente [os Americanos]” (p. 345). Referia-se com frequência de forma xenófoba aos “louros do Norte” (mas estava sempre disposto a apoiar esses outros “louros do Norte” — os Russos). Para o Che, o aspecto positivo do colonialismo em África era “o ódio que o colonialismo deixou no espírito das pessoas” (p. 619).

     O niilismo e a ideia de que “o fim justifica os meios” são traços fascistas essenciais (igualmente partilhados pelo marxismo-leninismo). Todo o passado deve ser varrido numa grande conflagração e um “Homem Novo” superior ser criado — pela força, se necessário. O Homem Novo é necessário porque o Homem Antigo — a humanidade actual — é fraco e burguês e apenas útil como carne para canhão na luta pelo futuro glorioso. Sacrificar uma geração ou duas pela causa não tem nada de chocante na mentalidade fascista. Como ele declarou, “quase tudo quanto pensámos e sentimos no passado deveria ser arquivado, e deveria ser criado um novo tipo de ser humano” (p. 479).

     Em comparação com a sua prontidão para sacrificar inúmeras vidas pelo “futuro glorioso”, os espancamentos e encarceramentos administrados pelos Peron parecem moderados. Depois dos russos terem retirado os seus mísseis, pondo termo à Crise dos Mísseis Cubanos de 1962, o Che “encolerizou-se contra a traição soviética” e declarou ao jornalista do Daily Worker (Londres) (*3) que “se os mísseis tivessem estado sob controlo cubano, eles tê-los-iam lançado”. O jornalista “achava que ele estava descontrolado pela maneira como tudo se passara na questão dos mísseis” (p. 545). Em 1965, defendia uma guerra mundial revolucionária e apocalíptica, mesmo se ela desencadeasse a bomba atómica. “Milhares de pessoas morrerão por todo o lado… Mas isso não nos deveria afligir...” (sublinhado por mim). Dessa destruição em massa era suposto surgir a nova ordem socialista (p. 604).

     O plano do Che para a fatal campanha boliviana implicava que “a Bolívia [devia] ser sacrificada pela causa da criação das condições para revoluções nos países vizinhos”. A ideia era criar novas guerras do Vietname na América Latina e com isso imobilizar e enfraquecer os EUA. Isso para provocar a união da Rússia, da China e dos movimentos de guerrilha do Terceiro Mundo num bloco poderoso para então destruir os Estados Unidos (p. 703). Uma vez mais, mesmo que esse esquema pudesse provocar uma guerra atómica.

     A mensagem do Che na reunião da Tricontinental em Havana, em Abril de 1967, levou os seus impulsos fascistas, niilistas e românticos a um apogeu sangrento. Não desejava nada mais do que um “longo e cruel” confronto global. A qualidade importante requerida nessa guerra mundial era “um ódio implacável… elevando-nos acima e além dos limites naturais de que o homem é herdeiro, transformando-o numa eficaz, violenta, sedutora e fria máquina mortífera...” (sublinhado por mim). Essa guerra devia ser “total” e devia ser travada tanto dentro dos EUA como fora, travada até que a “fibra moral americana começasse a declinar”, o que devia ser sintomático da “decadência” dos EUA. “Como poderíamos olhar o futuro de tão luminoso e tão próximo, se dois três, muitos Vietname  florescessem… Toda a nossa acção é um grito de guerra contra o imperialismo e um clamor pela unidade dos povos contra o grande inimigo da humanidade: os EUA. Em qualquer lugar que a morte nos surpreenda, que seja benvinda.” (p. 719). É preciso referir que a glorificação da morte é um traço tipicamente fascista e o “Viva a Morte!” dos falangistas (*4) ecoa no estribilho castrista “Patria o Muerte!”, ou seja “Pátria ou Morte!”.

 

O Che stalinista

 

     Em 1955, o Che tinha-se tornado um stalinista convicto, escrevendo: “Jurei diante de uma imagem do velho e saudoso camarada Staline que não descansarei enquanto não vir esses polvos capitalistas aniquilados” (p. 126). Ele “tinha-se mostrado céptico [a propósito do marxismo] até à sua descoberta das obras de Staline” quando estava na Guatemala (p. 565). (O Che teve sempre uma certa simpatia pela URSS e censurava o anticomunismo como um exemplo de baixa cultura.)

     Não é muito difícil passar do fascismo ao stalinismo (ou o contrário, tanto faz). As similitudes entre as duas ideologias — a glorificação da violência, a ditadura, o estatismo, o nacionalismo, a criação de bodes expiatórios — tendem a sobrepor-se às suas diferenças. Onde há uma diferença é no domínio da filosofia. Ao contrário do fascismo, o stalinismo ainda se agarra à bagagem pseudo-científica do marxismo. A crença de que as “leis do desenvolvimento social” estão do seu lado dá aos stalinistas um sentimento de conforto psicológico. Cria também uma contradição intransponível — uma filosofia subjacente rigidamente determinista combinada com uma prática altamente voluntariosa. (Sendo o Partido o “sujeito da história” — ou seja, o grupo que faz a revolução e controla o futuro desenvolvimento do Estado socialista.)

     Para a teoria do “foco”  do Che (*5), que dispensa o partido e o movimento de massas em favor de um pequeno grupo de guerrilheiros, essa contradição é intensificada ao último grau. Veja-se a dificuldade com que ele tenta superar esse problema: na época da invasão da Baía dos Porcos (1962), o Che escrevia: “A classe camponesa da América, baseando-se ela própria na ideologia da classe operária, cujos grandes pensadores descobriram as leis sociais que nos governam.” Contudo, o que faltava era o denominado factor subjectivo — “a consciência da possibilidade da vitória” que devia ser galvanizada pela luta armada dos grupos de guerrilha (p. 505).

     Enquanto stalinista, o Che teve algumas obrigações extremamente importantes a cumprir no interesse do movimento comunista e da União Soviética. A primeira  delas foi orientar o Movimento do 26 de Julho na direcção do stalinismo. Muito poucos participantes do Movimento do 26 de Julho eram comunistas ou sequer simpatizantes comunistas. Outros grupos revolucionários como o Directório ou os Anarquistas eram anti-stalinistas de forma militante. (O Che e Raul Castro eram stalinistas, Fidel era muito amigo do PC mas discreto a esse propósito). O Che tornou-se o “participante-chave nas conversações delicadas com o Partido Socialista Popular” (o Partido Comunista Cubano) (p. 363). Ele “trabalhou secretamente para cimentar os laços com o PSP” (p. 389). A aliança entre o 26 de Julho e o PSP tinha de ser secreta para não cindir o movimento revolucionário nem provocar a hostilidade americana. Muitos dos patriotas cubanos detestavam o PC, que só muito tardiamente se tinha juntado à luta e que em tempos tinha sido aliado de Batista!

     Após a revolução, o Che tornou-se a ligação entre o KGB e o novo governo revolucionário, num momento em que as relações entre Cuba e a Rússia tinham de ser clandestinas para não irritar o cubano médio nem alertar o Departamento de Estado norte-americano (p. 440). Como declarou o antigo agente do KGB que estava associado com ele, “o Che foi praticamente o arquitecto das nossas relações com Cuba” (p. 492). Mas não foi essa a única relação que ele teve com os russos. O tratado dos mísseis nucleares com a Rússia, que quase desencadeou a Terceira Guerra Mundial, foi igualmente celebrado pelo Che (p. 530).

     Em 1963, o Che ficou desapontado quando se apercebeu de que o modelo russo, que na sua ingenuidade abraçara de forma tão entusiasta, não era muito bom (p. 565). Pouco depois, não tendo manifestamente aprendido com os seus erros com o stalinismo russo, apaixonou-se pelo stalinismo chinês, escrevendo: “o sacrifício é fundamental… os chineses compreendem isso muito bem, muito melhor do que os russos” (p. 605). Mesmo antes, o Che também tinha uma “admiração especial” pela China e pela Coreia do Norte (p. 495).

 

O Che executor

 

     Na Sierra Maestra, o Che nunca hesitou em pedir a execução de guerrilheiros ou de camponeses locais que não se enquadravam nas suas regras. “Informadores, insubordinados, simuladores e desertores” levavam com uma bala na cabeça. Fidel era muito mais tolerante para com a fraqueza humana e anulou muitas ordens de execução do Che. As execuções eram muito frequentes durante a campanha de guerrilha (p. 231). Era “notoriamente severo” nas suas punições. Uma vez ameaçou abater uma série de guerrilheiros que tinham iniciado uma greve da fome contra as más provisões. Só a intervenção de Fidel o travou (p. 346).

     Pouco depois da queda de Batista, o Che ajudou a criar o C-2, a nova polícia secreta. Foi igualmente encarregado de purgar o exército e a burocracia governamental dos “traidores, espiões e homens de mão de Batista”. Todavia, foram sobretudo indivíduos menores que foram presos, pois os oficiais e os altos burocratas fugiram com o ditador. O Che foi o “procurador supremo” que tomava a decisão final de executar ou não (p. 385). E ele executou. O Che era “impiedoso” (p. 390) e entre Janeiro e Abril de 1959 foram abatidas mais de 550 pessoas pelos pelotões de execução (p. 419). Em Janeiro de 1960, não foram só os supostos partidários de Batista a serem fuzilados. Alguns jovens católicos foram executados por distribuição de panfletos anticomunistas (p. 458).

     O Che está implicado na destruição do anarco-sindicalismo cubano (assim como do trotskismo). Nos anos de 1950, Cuba foi a cena de um dos últimos grandes movimentos sindicalistas da América Latina. (Ver Anexo.) Os libertários controlavam muitos sindicatos e eram uma importante força contra Batista. Os anarquistas tinham sobrevivido às ditaduras de Machado e Batista, mas não sobreviveram a dois anos de castrismo. Em 1962, o movimento estava reduzido a 20 ou 30 membros, tendo algumas centenas de outros fugido para o exílio, sido presos ou executados. Para alguém que ainda possa alimentar ilusões sobre o carácter pretensamente libertário do Che, a seguinte citação deveria pôr-lhe um termo: “O individualismo… deve desaparecer de Cuba… deverá assegurar-se a correcta utilização do conjunto dos indivíduos para o benefício absoluto da comunidade” (p. 478). Semelhante opinião sobre o indivíduo estava tão longe das ideias libertárias quanto se possa imaginar.

 

O Che burocrata

 

     No final de 1959, a autonomia universitária — que tinha conseguido sobreviver com Batista — foi abolida com a aprovação do Che. Foram introduzidos novos programas de Estado (p. 449) e as universidades tornaram-se meros instrumentos do regime.

     Em 1960, foi criado, sob a direcção do Che, o Instituto Nacional da Reforma Agrária (INRA). Apesar de na concepção inicial se destinar a gerir as “cooperativas” de Estado, esta organização acabou por assumir o controlo de toda a economia (p. 458). Ora, uma cooperativa de Estado é uma contradição nos termos, pois as cooperativas são por natureza associações voluntárias, detidas e geridas localmente. O que o INRA fez foi nacionalizar as cooperativas existentes (algumas das quais eram anarquistas) e instituir uma grande quantidade de novas falsas cooperativas — essencialmente herdades do Estado. Em 20 de Fevereiro de 1960, o Che anunciou uma “planificação de estilo soviético” para Cuba (p. 462), coisa que tinha sido seu desejo havia muito. (A nomeação do Che à cabeça da economia cubana foi um desastre completo e provavelmente contribuiu para o lançar na sua acção suicidária boliviana.)

     Estando à cabeça da economia cubana, o Che foi no fim de contas responsável pela abolição dos direitos dos trabalhadores e pela destruição do movimento sindical independente. Quanto aos primeiros, no final de 1960, os trabalhadores tinham perdido o direito de greve, a segurança do emprego, a baixa médica, a semana de 44 horas, as horas extraordinárias pagas a 150 por cento, as férias pagas, sendo obrigados a fazer “trabalho voluntário” (3). Quanto aos sindicatos, ao mesmo tempo que liquidava o anarco-sindicalismo, o regime tentou fazer eleger a lista do Partido Comunista para a direcção da Confederação do Trabalho Cubana (CTC), a qual foi rejeitada por 90% dos delegados. Os stalinistas foram impostos de cima pelo Estado. O dirigente da CTC, David Salvador, membro importante do Movimento do 26 de Julho, nada menos, foi condenado a 30 anos de prisão pela sua oposição à tomada de controlo stalinista do seu sindicato. Purgou a sua pena atrás das grades numa prisão juntamente com cerca de 700 outros presos políticos, muitos dos quais eram sem dúvida sindicalistas (4). A responsabilidade do Che nesta área não pôde ser mais completa, pois em Outubro de 1960 declarou que “o destino dos sindicatos é desaparecerem” e apoiou a Lei 647, pela qual: “O Ministério do Trabalho pode assumir o controlo de qualquer sindicato, demitir os dirigentes e nomear outros…” (5).

 

A tragédia de Che Guevara

 

     Despido da mitologia, o Che não é muito bonito de contemplar — a menos que se admirem pessoas cheias de ódio, de violência e adeptas do despotismo. Mas não se leve isso demasiado longe. O Che não era um sociopata de olhar de víbora como Staline ou um intelectual fanático de sangue frio como Pol Pot. Antes de se tornar o Savonarola guerrilheiro da Sierra Maestra, era conhecido por ser um brincalhão e um travesso. Um hippie antes do seu tempo, um apaixonado de poesia, de conversas até de madrugada, de viagens, de futebol, de boa comida, de motas e de mulheres. Poucos dos seus amigos podiam acreditar na transformação que sofrera o seu velho compincha El Chancho após a sua ida para Cuba. (El Chancho era a sua alcunha e significa “O Porco”. Era assim chamado devido ao seu gosto pelas roupas esfarrapadas e sujas e à sua aversão pelos banhos — uma das suas maneiras de se rebelar contra as suas origens de classe superior.) O Che era essencialmente um jovem normal mas rebelde, inteligente e muito culto.

     Algo lhe aconteceu. Sim, tinha absorvido muito das desagradáveis ideias de Peron, mas muita gente o fez. Essas pessoas continuaram as suas vidas e não foram destruídas por uma ideologia. A política também não era muito importante para o Che até ter ido para a Guatemala. Ali descobriu uma ideologia que “chocalhou” as suas crenças e preconceitos subjacentes, que parecia explicar o mundo e dar substância e sentido à sua vida. O Che era fundamentalmente um ser humano normal e equilibrado que se tornou escravo de uma religião secular cruel. O seu sistema de crença consumiu-o, levando-o a fazer coisas que normalmente não teria feito. Tornou-o duro e fanático. Como declarou seu pai, Guevara-Lynch: “Ernesto brutalizou a sua sensibilidade para se tornar um revolucionário.” A sua mãe caracterizou esse novo Ernesto como “intolerante e fanático”. Os seus pais não se opunham às políticas de esquerda, mas só ao que essas políticas estavam a fazer ao filho (p. 605).

     Numa interpretação de conjunto, o Che era essencialmente ingénuo. Considere-se a ingenuidade de se tornar um stalinista em 1955, não rompendo com o culto durante as revelações de Khrouchtchev em 1956 (quando milhares de intelectuais ocidentais se afastaram do PC) e depois, já no fim, de querer trocar o stalinismo russo pela variante chinesa. Não é que os horrores do stalinismo não fossem bem conhecidos — não precisávamos de Soljenitsyne para nos descrever o goulag —, qualquer anarquista, trotskista ou socialista anti-stalinista lhe poderia ter dito a verdade. E talvez alguém o tenha feito, mas ele deve ter-se recusado a ouvir.

     O seu culto pessoal da vontade era igualmente ingénuo, acabando por o conduzir à morte. Apesar de aderir a um sistema de crenças que tremia incessantemente sobre as “condições materiais”, ele ignorou a “realidade material” na sua última luta fatal. Como pôde ele não ter em conta o facto de os camponeses bolivianos terem recebido terras durante a revolução populista de 1952 e não estarem interessados noutra sublevação armada? Como pôde ele não saber isso? Veja-se a sua declaração na Tricontinental — como se atacar um país fosse quebrar a vontade do seu povo — como se pudesse amedrontar os americanos na derrota.

     Quem conheça a história sabe bem que isso não se passa assim — tentar aterrorizar uma nação só reforça a determinação do seu povo. E se os EUA eram “o maior inimigo da humanidade”, o que era então a Rússia (ou a China) com as suas dezenas de milhões de pessoas massacradas pela fantasia de ditadores megalómanos?

     Como pôde ele não saber essas coisas? Terá sido porque não as quis saber?

     Não se pode negar que o Che era fisicamente muito corajoso, repetidas vezes se colocou nos maiores perigos durante a luta de guerrilha. Era um combatente verdadeiramente corajoso. Apesar de duro nos seus métodos, não era hipócrita — os seus sacrifícios, os seus sofrimentos eram exemplos para os seus homens. Mas a coragem física não é assim tão rara, muitos soldados na frente a têm, alguns criminosos também. Muitas pessoas que pertencem aos piores tipos de cultos políticos ou religiosos agem com uma imensa bravura.

     Uma outra questão é a combinação da coragem física e moral. Esta última, ele não a tinha, tal como ninguém que ache que “o fim justifica os meios”. Para mostrar coragem moral, ele, ou qualquer outro na sua posição, teria tido que saber sacrificar a revolução a princípios humanitários superiores. Mais vale nenhuma revolução do que uma baseada no terror e no assassinato em massa. Mais vale arriscar a organização do que executar camponeses que querem voltar para casa (“desertores”). Mas para o Che, como para os stalinistas,  fascistas e todos os fanáticos em geral, esses princípios eram exemplos de fraqueza e de sentimentalismo liberal. No entanto, com toda a objectividade, a combinação da coragem física e moral é muito rara. Quantos de nós têm estas duas características? (6)

     O Che foi reflexo do seu meio ambiente e não o superou. Foi uma imagem reflexa do peronismo, do romantismo, do machismo e da xenofobia tão presentes na Argentina dos anos 1950. A sua simpatia pelo stalinismo foi algo partilhado por muitos intelectuais da época. Até o seu espírito boémio corresponde ao modo de comportamento da juventude culta das classes superiores. O verdadeiro Grande Homem ou Grande Mulher supera as influências da sua época e do seu meio ambiente, quebrando os hábitos ultrapassados pelo tempo e promovendo um conjunto de ideias novas. O Che, despojado da sua imensa coragem e zelo fanático, foi assim essencialmente um homem mediano. (7)

 

O Che morreu pelos nossos pecados

 

     O Che foi um homem comum, não um “homem completo”, como proclamou Sartre, esse mais incompleto dos homens (Sartre nunca encontrou um ditador ou um terrorista de esquerda de quem não gostasse). O Che é cada um de nós que sentiu um dia vontade de matar um opositor político. O Che é cada um de nós que odiou alguém com um ponto de vista diferente. O Che é cada um de nós que foi aspirado no turbilhão de qualquer culto ideológico-político. O Che é cada um de nós que fez a apologia de um acto terrorista. O Che é cada um de nós que acreditou um dia no “por todos os meios necessários”. O Che sou eu. O Che és tu. O Che apenas meteu em acção determinada os ódios e medos que sentimos em nós. Ele era um homem normal, não um perverso como Hitler ou Staline — déspotas que podem muito simplesmente ser descritos como monstros e como tal não têm relação comigo nem com o curso possível da minha acção. O Che, num certo sentido, “morreu pelos pecados” de pessoas normais apanhadas na ideologia, dominadas por fraquezas morais e problemas psicológicos que são incapazes de resolver de maneira construtiva.

     O Che não se parece lá muito com um santo, não é verdade? Mas há uma coisa a ter em conta — o pior pecador pode por vezes tornar-se um santo. Um grande exemplo disso foi São Paulo, que em certa altura foi um violento perseguidor de cristãos. Evidentemente, o Che foi assassinado antes de ter a possibilidade de ver os seus erros e, dada a sua grande teimosia, poderia nunca os ver, mas quem sabe? Contudo, o seu sofrimento, a sua autodestruição (e destruição de outros) e a sua derrota final servem como um exemplo para os jovens de todas as épocas. NÃO SIGAM O SEU CAMINHO! Se o sacrifício do Che dissuadir os jovens de cair nesse inferno criado ideologicamente, talvez mereça o manto da santidade. (8)

     Talvez então devêssemos acender uma vela por São Che. E pedir: “Por favor, não mais guerrilheiros heróicos!”

 

Larry Gambone

 Setembro de 1997

 

NOTAS:

 

     (1) Os números entre parêntesis referem-se às páginas de Che A Revolutionary Life, de John Lee Anderson, Grove Press NY, 1997. É a biografia definitiva de Guevara, que contém uma documentação até aqui inacessível. O trabalho de Anderson foi atacado por alguns críticos como sendo uma “hagiografia”. Ele tem simpatia pelo Che e por uma parte da ideologia que o motivou. Mas isso serve para tornar as citações ainda mais devastadoras para a imagem mítica.

     (2) The Cuban Revolution A Critical Perspective, Sam Dolgoff, Black Rose Books, Montréal, p. 276.

     (3) Ibid., p. 99.

     (4) Ibid., p. 100.

     (5) Ibid., p. 180.

     (6) Alguns exemplos seriam praticantes da não-violência como Gandhi ou Martin Luther King. Contam-se também entre eles lutadores intelectuais como George Orwell, Albert Camus e Simone Weil.

     (7) É claro que ninguém supera completamente as suas origens e a sua história. A lista de pessoas moralmente corajosas acima apontadas poderia igualmente servir como exemplos de pessoas que quebraram as regras dominantes.

     (8) O problema é que a esquerda ainda o apresenta como um exemplo a seguir.

 

Notas do tradutor

 

     (*1) Na América Latina, sobretudo na Bolívia, Ernesto Guevara é venerado como Santo Ernesto de la Higuera, sendo la Higuera o nome do povoado boliviano onde foi assassinado.

     (*2) Peron foi derrubado por um golpe de Estado militar de inspiração nacional-católica em 1955.

     (*3) Daily Worker, jornal do Partido Comunista britânico.

     (*4) Falangistas, os fascistas espanhóis dos anos 1930.

     (*5) A teoria do foco guerrilheiro foi exposta por Che Guevara de forma sistemática na obra que ditou a Régis Debray Revolução na Revolução. Extrapolada a partir da experiência da guerrilha cubana, que foi considerada como exportável quando era muito específica, essa teoria considerava que a acção voluntarista de um grupo móvel de guerrilheiros podia arrastar progressivamente a adesão das massas e constituir o embrião do futuro partido revolucionário combatente. A aplicação desta teoria conduziu por todo o lado a uma derrota sangrenta.

 

 

ANEXO

 

Os anarco-sindicalistas cubanos nos anos 1950.

 

A mais importante organização anarquista cubana era a Associação Libertária de Cuba (ALC). Apresentamos a seguir uma lista parcial das suas secções:

 

Pinar del Rio

Membros da ALC participaram nas direcções dos sindicatos dos trabalhadores do tabaco, dos electricistas, da construção, dos carpinteiros, dos empregados bancários e dos trabalhadores da saúde. Também produziram programas na rádio local.

 

San Juan y Martinez

Dirigiram o sindicato dos trabalhadores rurais.

 

San Crisobal

Dirigiram a Associação Agrária e os sindicatos dos trabalhadores açucareiros e dos trabalhadores tabaqueiros.

 

Artemisia

Dirigiram os trabalhadores tabaqueiros e produziram programas radiofónicos.

 

Havana

Participação nas direcções dos sindicatos dos electricistas, dos trabalhadores dos bens alimentares, dos transportes, do calçado, dos pescadores, dos marceneiros, da saúde, metalurgia e construção. Alguma influência nas associações de estudantes e profissionais.

Publicação de El Libertario (nessa época jornal diário) e do jornal mensal Solidaridad Gastronomica (do sindicato dos trabalhadores dos bens alimentares) e realização de encontros públicos semanais e de programas radiofónicos.

 

Arroyo Narajo

Direcção da Associação de Pais e de Professores, da Associação Cultural local e da Cooperativa de Consumidores.

 

Itato

Direcção do sindicato dos trabalhadores das salinas.

 

Ciego de Avila

Produção de programas radiofónicos e influência na associação camponesa, e nos sindicatos dos trabalhadores açucareiros e da saúde.

 

Nuevitas

Direcção do sindicato dos trabalhadores rurais, da cooperativa agrícola e de outros sindicatos.

 

Santiago de Cuba

Forte influência no sindicato dos trabalhadores dos bens alimentares.

 

Guantanamo

Organização e direcção da Cooperativa de Produtores de Café.

 

A ALC tinha ainda alguma influência em pelo menos um sindicato profissional ou associação popular de 23 outras localidades.

 

(Retomado de The Cuban Revolution A Critical Perspective, por Sam Dolgoff, Black Rose Books, Montreal, páginas 56-59.)

 

 

Outras Leituras

 

  • Cuban Anarchism, por Frank Fernandez. libcom.org
  • The Cuban Revolution: A Critical Perspective, por Sam Dolgoff www.iww.org
  • Cuba, the Anarchists and Liberty, folheto por Frank Fernandez libcom.org
  • El Libertario, jornal anarquista venezuelano abrangendo movimentos políticos e sociais latino-americanos. nodo50.org
  • Anarkismo.net , um sítio web internacional multilingue anarquista de notícias e opinião
  • A Federação Anarco-Comunista do Nordeste, organização bilingue de revolucionários que se identificam com a tradição comunista dentro do anarquismo. nefac.net
  • Industrial Workers of the World, sindicato operário revolucionário international: iww.org

 

(Tradução de asb e hms para o Portal Anarquista.)

 

https://theanarchistlibrary.org/library/larry-gambone-saint-che-the-truth-behind-the-legend-of-the-heroic-guerilla-ernesto-che-guevara

 

theanarchistlibrary.org

 

Sobre o Autor:

 

Larry Gambone

Anarquista canadiano. Partidário do anarco-sindicalismo, embora valorize também outras tradições anarquistas como o anarquismo individualista e oanarquismo mutualista, é investigador da história das ideias políticas, sendo a sua especialidade os temas relacionados com o liberalismo libertário, o anarquismo e o populismo. É membro do sindicato revolucionário IWW. Escreve desde a década de 1960 e actualmente é editor das publicações The Red Lion Press, é o impulsionador de uma iniciativa pela mutualização dos serviços sociais e mantém um blog.

 

 

Ver também: https://es.wikipedia.org/wiki/Larry_Gambone

 

_______________

 

 

Nota do tradutor:

 

     Fiz a presente tradução em meados de 2016, sendo revista pela minha companheira Helena Martinho dos Santos alguns meses antes de falecer, em 11 de Novembro de 2017. Fomos sempre grandes admiradores do Che e, como tal, considerámos que este texto é muito importante. Nada que não soubéssemos já, mas o enfoque do autor é fundamental. Estou por isso convicto de que também será útil aos leitores. (Ângelo Santana Barreto)

 

Relevante para o debate é este video sobre a força do mito:

https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=Hu-Nx6gjDcs

assim como algumas citações do grande demolidor de mitos que foi Mikhail Bakunine:

 

     “Pegue no mais ardente dos revolucionários e dê-lhe poder absoluto, ao fim de um ano será pior do que o próprio czar.»

 

     «Quem quer, não a liberdade, mas o Estado, não deve brincar à Revolução.»

 

     «Religião é demência coletiva.»

 

     «A emancipação económica deve ser a mãe de todas as outras emancipações.»

 

     «A liberdade alheia é a minha mas sem limites.»

 

     «Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma.»

 

     «Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.»

 

     «Sou um amante fanático da liberdade, considerando-a como o único espaço onde podem crescer e desenvolver-se a inteligência, a dignidade e a felicidade dos homens; não esta liberdade formal, outorgada e regulamentada pelo Estado, mentira eterna que, em realidade, representa apenas o privilégio de alguns, apoiada na escravidão de todos; (...) só aceito uma única liberdade que possa ser realmente digna desse nome, a liberdade que consiste no pleno desenvolvimento de todas as potencialidades materiais, intelectuais e morais que se encontrem em estado latente em cada um.»

 

     «As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taberna: para se estupefazerem, para se esquecerem de sua miséria, para se imaginarem, de algum modo, livres e felizes.»

 

     «É melhor a ausência de luz do que uma luz trémula e incerta, servindo apenas para extraviar aqueles que a seguem.»

 

     «A Liberdade do outro estende a minha ao infinito.»

 

     «É preciso que compreenda que não existe liberdade sem igualdade e que a realização da maior liberdade na mais perfeita igualdade de direito e de fato, política, económica e social ao mesmo tempo, é a justiça.»

 

     «Estamos convencidos de que o pior mal, tanto para a humanidade quanto para a verdade e o progresso, é a Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça a dignidade do homem, pervertendo suas ideias sobre o que é bom e o que é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do crime? Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho mentiroso, devemos acabar com a Igreja.»

 

     «Eu reverto a frase de Voltaire, e digo isto, se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo.»

 

     «A existência de Deus implica a abdicação da razão e da justiça humanas, ela é a negação da liberdade humana e resulta necessariamente numa escravidão não somente teórica, mas prática.»

Partidos políticos e anarquismo: o que separa os libertários das tendências autoritárias

Abril 17, 2019

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aqui

 

A questão do partido, da necessidade ou não de um partido político que aglutine a classe trabalhadora e crie as condições para a revolução social, sempre foi um tema central para os leninistas, sobretudo depois do "Que Fazer?" de Lenin, onde este postulou os principios do partido revolucionário, constituído essencialmente por revolucionários profissionais e assumindo-se como a vanguarda revolucionária.

Milhares de jovens em todo o mundo, e também em Portugal, partilharam desta ilusão, ou seja, da ideia de que era preciso uma "vanguarda" para organizar e dirigir os trabalhadores na luta emancipadora, logo que a construção de um "partido revolucionário" era essencial.

O destino trágico dos países do socialismo real, em que uma minoria tomou o poder em nome do povo, praticando toda a espécie de abusos de poder e instalando o capitalismo de estado sobre a generalidade dos trabalhadores, leva a equacionar hoje de novo as propostas anarquistas de organização, ainda que o movimento libertário não tenha ficado imune a este debate entre partido político e auto-organização dos trabalhadores.

Este livro é um contributo fundamental para este debate e para uma percepção mais nítida de qual o posicionamento da maior parte dos anarquistas sobre a questão da organização.

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